Hoje eu acordei pensando no Jardim do Éden, não me perguntem por quê. A Gênese é uma história forte, que representa muito das situações onde a humanidade, como coletivo, se colocou. Respeito todos aqueles que consideram a história verídica, mas eu a tratarei, como sempre, como um mito de criação. Como qualquer mito de criação, ela representa para mim a maneira como aquele povo conseguiu aliviar a angústia de não ter noção precisa de sua origem, ao mesmo tempo em que trouxe vários questionamentos e reflexões sobre a nossa quase inexplicável existência à tona. Um conto bastante profundo e inspirado!
O objetivo aqui não é criar debate sobre qual interpretação está certa. Todos tem o direito de pesarem o que quiserem e o dever de tolerar a visão alheia. Quero me ater especificamente aos versículos 2-16 e 2-17, que dizem: "E deu-lhes (Deus) este preceito, dizendo: Come de todas as árvores do paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente."
Olha só, não foi descrita nenhuma maçã. O que nos foi proibido foi o fruto do conhecimento do bem e do mal, para não morrermos. Por que Deus não gostaria que soubéssemos diferenciar o bem e o mal? e por que a ameaça de morte? Mais a frente, a serpente avisa que o fruto não mataria, mas abriria os olhos ( 3-4 e 3-5). Realmente, é isso que acontece, pela descrição bíblica, ninguém morre depois de comer daquele fruto. Então nos sobram duas opções: Ou Deus é mentiroso, por maldade ou por não saber tudo; ou Deus usa uma linguagem figurada. Considerando a visão de Deus perfeito que havia, nos sobra a segunda. Efetivamente, ao comermos o tal fruto, morremos em nossa condição anterior, para iniciar uma nova existência, de olhos abertos. Uma existência permeada de moral, visto que agora podíamos distinguir o bem e o mal.
A primeira consequência foi percebermos que estávamos nus, ali, no meio da Jardim. Os animais andam nus e não sentem vergonha de suas vergonhas. O único animal que se cobre é o humano, por diferenciar os dois estados. A segunda consequência é que fomos expulsos do Jardim, e teríamos que trabalhar todos os dias da via pelo nosso sustento. Se não soubéssemos diferenciar as coisas, que mal faria ficar vivendo de maneira inconsequente por aí, como os animais mesmo fazem? O fato é que não éramos mais como animais, tínhamos agora responsabilidades, planos, escolhas....
E seguimos nós, humanidade, assim. Na mesma medida que a ignorância nos mantem confortáveis, por não ser necessário agir, nos tira também a capacidade de aprimorar-nos. Sempre que nos defrontamos com um obstáculo, seja ele um vazamento na casa ou a crise ecológica do planeta, temos a responsabilidade de corrigir, as custas do nosso cansaço e suor do rosto. Essa obrigação que antes não havia, na infância de cada um e na infância da espécie, é dura, penosa. Mas nos compele a sermos melhores e temos, pouco a pouco, criado o nosso Éden particular, no mesmo ritmo que aprendemos a escolher o bem que aprendemos sobre o mal de qual viemos.
PS: Usei a minha Bíblia para procurar os trechos em questão, que me foi dada pela minha avó Clotilde em junho de 86, eu então com 7 meses de idade, acho que ainda não sabia ler. Na ocasião eu estava bastante doente, foi o que me falaram. O presente em si não ajudou muito na ocasião, mas a intenção com certeza foi fundamental. Me serve hoje, porém, para apreciar esse Best-Seller e me lembrar da jornada dela, encerrada a alguns anos. Uma vida de trabalhos penosos, espinhos, suor no rosto e certamente muito aprendizado.