segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Trombos Humanos

Essa é uma reflexão antiga, do tempo da faculdade, baseada na observação dos corredores desta. Se baseia na analogia entre trombos vasculares e consequente obstrução causada por eles, na teoria médica aceita atualmente e o comportamento das pessoas que se encontram casualmente e param para conversar.

Quando se observa o padrão de distribuição das rodas de conversas em locais públicos, é possível verificar que eles se concentram nos pontos mais estreitos de passagem. Não basta apenas estarem alocados nos estreitos corredores ao invés de estarem no amplo salão logo ao lado. É quase que obrigatório que estejam dispostas próximas a um bebedouro, porta de banheiro, vasos de plantas tamanho gigante ou qualquer outra coisa que contribua na obstrução que causarão nos corredores.

Geralmente as pessoas conversarão tranquilamente nesta situação, sem se preocupar se massas de pessoas tentando atravessar a passagem, que agora mais parece a batalha das Termópilas, estão apressadas ou reclamando. O único que irá se preocupar é aquele que tem as costas voltadas para a multidão e está sendo sutilmente espancado por esta.

Muitas são as possíveis explicações para este fenômeno. A primeira e mais simplista é que são nestes pontos onde as pessoas mais se encontram e, não estando longe suficiente só para acenar e seguir seu caminho, são obrigadas a parar e conversar. Geralmente como todos os seres humanos, acabam não percebendo quando são incômodos para o ambiente em torno deles e não cogitam se retirar para um local mais adequado para encerrar o assunto.

A segunda e mais maldosa é semelhante a primeira, mas infere que o fato de estar incomodando os transeuntes acrescenta prazer à conversa.

A terceira e mais pseudointelectual é que as pessoas que permaneciam nos estreitamentos da passagem durante a evolução humana se beneficiavam disto de alguma maneira. Talvez cobrando pedágio e gerando uma estrutura melhor para seus descendentes, talvez tendo mais chance de encontrar parceiros sexuais disponíveis, sei lá.

De qualquer maneira, o resultado empírico não mente. As pessoas, ao coagularem umas com as outras, se depositam nos estreitamentos dos vasos sociais.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pressão alta

Outro dia, andando por perto da faculdade, eu vi um posto de prevenção à pressão alta. Tinha um cartaz que dizia mais ou menos assim: "Pressão alta pode matar. Afeta uma grande parte da população. Você pode ter pressão alta! Faça aqui os exames e descubra."

Achei fantástico! Quer dizer, estou andando tranquilo, descubro que posso morrer a qualquer instante, minha pressão sobe. Então eu faço o teste, a pressão realmente está alta, me dizem "ainda bem que descobriu a tempo". Me trato o resto da vida, feliz por não morrer de pressão alta e morro de efeitos colaterais das drogas.

É claro, a campanha serve para reduzir o número de óbitos decorrentes deste mal que afeta a sociedade atual. Só foi possível graças a modernidade, que disponibilizou o diagnóstico fácil para todos e que gerou drogas boas o suficiente para um tratamento adequado, em quantidades massivas que precisam ser vendidas. Bom que a situação que causou o problema possa resolve-la com uma quantidade aceitável de efeitos colaterais e ainda sair como heroína!

Mas quando se reduz os óbitos decorrente da pressão alta, não se aumenta o de cancêr, ou de pneumonia, ou de qualquer outra coisa? Não se deveria fazer uma campanha pela melhor qualidade de vida, o que não só reduziria a pressão e aumentaria a expectativa de vida, como a tal campanha, mas também previniria outras doenças e geraria um bem estar para o público alvo, com a prática de exercícios, dieta saudável, tempo livre em quantidade e qualidade suficiente?

Falando sério, quem quer viver uma vida saudável, quando é mais fácil ingerir uns comprimidos? Comprimidos que foram comprados com o dinheiro do trabalho excessivo e horas de trânsito, que causaram o aumento de pressão. É mais fácil viver anestesiado mentalmente, sem pensar em qualquer coisa dessas e tomar logo o remédio que o médico mandou.

O que é reflexão?

O sr. Michaelis explica:

reflexão
re.fle.xão
(cs) sf (lat reflexione) 1 Ato ou efeito de refletir. 2 Prudência, juízo, tino, pensamento sério. 3 Meditação. 4 Volta ou retrocesso que faz o corpo elástico, saltando do corpo a que foi bater. 5 Desvio de direção que sofre um corpo, quando, animado de certa velocidade, encontra outro corpo resistente; ricochete. 6 Retorno da luz ou do som. 7 Fís Fenômeno que se verifica quando um raio de luz ou de calor incide sobre uma superfície plana e polida, voltando para o meio de onde partiu. 8 Psicol Ato em virtude do qual o pensamento se volta sobre si mesmo para examinar seus elementos e combinações. 9 Filos Atenção aplicada às operações do entendimento, aos fenômenos da consciência e às próprias idéias. 10 Consideração atenta de algum assunto; cálculo, raciocínio; aplicação do entendimento, da razão. 11 Argumento, comentário, observação, ponderação. 12 Argumento contrário, objeção, réplica. R. completa, Filos: o estudo do pensamento; a razão debruçando-se sobre si mesma. R. moral: exame de consciência.

Portanto, a ideia (agora sem acento) deste blog é aplicar este fenômeno às situações corriqueiras, que muitas vezes são tomadas como "normal" (que seguem a norma), mas na verdade são assustadoras, maravilhosas etc etc.

Claro, talvez este padrão se desvirtue, mas espero que se mantenha sempre o espírito inicial, de estimular o raciocínio e a crítica saudável.