"O caminho traiçoeiro que cruza as montanhas ao norte leva o nome do explorador que o atravessou pela primeira vez, séculos atrás. Partia em busca de ouro e fama, em uma síntese do perigo que a ambição humana pode ignorar. Até hoje as densa
s brumas que a noite invoca e as curvas acentuadas junto aos precipícios fazem deste lugar o último lar para muitas das almas desatentas que ousam enfrentá-las.
Não espere piedade daqueles que já desvendaram os segredos da passagem, deles só se pode receber brutalidade e desprezo.O desespero para chegar ao outro lado supera qualquer instinto de preservação ou responsabilidade moral frente ao próximo. Siga por sua própria conta e risco! Bem vindo à Fernão Dias."
Todo carioca que conheci até hoje foi muito simpático comigo. Não tenho do que reclamar, mesmo me esforçando, e olha que eu me esforço! Mas tem uma coisa mais forte do que eu, que é o inconsciente coletivo paulistano, que faz arrepiar os cabelos da nuca ao ouvir o roncar do erre da Cidade Maravilhosa.
. Essa maneira de pensar vem sendo construída desde 1554, quando poucos e vigorosos sacerdotes católicos portugueses venceram em pleno verão a implacável muralha verdejante que nos separa do oceano. Inaugurava-se ali a determinação inerente à cidade, a capacidade de superar obstáculos que se reflete na população do planalto como uma benção emanando do Pátio do Colégio.
A pobreza causada pelo afastamento do litoral intensificou ainda mais o sentimento. Privados das riquezas do comércio, os caboclos da vila se viram obrigados a explorar o território em busca de metais para explorar e índios para escravizar. Os primeiros nos trouxeram o reconhecimento pela descoberta das minas de ouro no hoje estado de Minas Gerais, propulsionando o crescimento econômico do país por um século. Os segundos nos trouxeram a mistura da cultura invasora com a local, com novos hábitos alimentares e nomes que nos acompanham até hoje, por exemplo.
Inclusive foram nossos habitantes aborígenes que nomearam o início do Brasil como um país, nada mais justo. Às margens do riacho de água barrenta, ou Ipiranga para os índios Guaianazes, se iniciou a nossa liberdade. Podíamos cometer nossos próprios erros a partir de então. Mais uma cortesia da vila interiorana. Apesar dos motivos pragmáticos para a independência, foi São Paulo que conseguiu declarar todo o país independente simultaneamente ao invés de deixá-lo fragmentar-se. Sem a firme orientação paulistana, estaria perdida a unidade nacional e, com ela, possivelmente os cinco títulos em Copas. Os portenhos poderiam fazer isso pela América Espanhola, caso houvesse uma serra após o Rio da Prata.
E então vieram os seguidores dos primeiros jesuítas, metaforicamente e literalmente. Imigrantes de todos os cantos inundaram a cidade, chegando à estação com um simbolismo mais sutil e profundo do que a própria Estátua da Liberdade, na grande maçã. A Luz se fazia para quem tinha São Paulo como destino. Nomearam a segunda estrada que nos leva ao litoral, depois do jesuíta pioneiro. Nordestinos, italianos, judeus, japoneses, portugueses e muitos outros estabeleceram-se por aqui, vencendo obstáculos até mesmo antes de chegar, como guerras, miséria, perseguições. Deram volume e consistência à mistura, se afinaram por trazer a garra que vibra terra da garoa. Não aprovar a imigração é não aprovar São Paulo, essa massa vibrante de cores, religiões e línguas. Tomamos forma graças a todos que vieram buscar por aqui as oportunidades inexistentes em qualquer outro local. A raça paulista não existe, ou se existe é feita justamente da confusão de tipos que ecoam em todos os seus bairros. Todos que peregrinam em busca de um sonho, como o apóstolo que nos batiza, podem fazer um lar em São Paulo. Podem também, como o apóstolo, verem seus sonhos realizados se acreditarem.
Esta é minha maneira de homenagear a minha cidade. Ela é repleta de problemas; sofre com violência, congestionamentos, poluição excessiva, para citar alguns. Mas também é viva, ativa, esperançosa, inovadora. Não é conduzida, conduz, além de ser onde eu nasci e cresci, e onde quero morrer. Se os sertanejos podem dizer isso, eu também posso.
P.S. - Sejam muito bem vindos todos os bolivianos que agora contagiam a cidade com esforço e humildade. Que possam fazer da cidade seus lares, como todos que vieram antes e que possam contribuir com sua riquíssima cultura para nossa história.
Outro dia, em uma conversa genérica, o assunto caiu o Sem Parar, aquele aparato de pendurar na frente do caro que faz com que não seja necessário parar nas cancelas de pedágios e estacionamentos. Um pessoal fica nos pedágios em momento de trânsito perguntando se os motoristas desejam instalar as geringonças. Geralmente a distração é tanta que não percebemos que as filas se formaram porque mais da metade das cabines estão fechadas. Se o pessoal que vende o Sem Parar estivesse na cabine, todos passariam muito mais rápido, mas vai entender.
Recentemente, eu tenho andado bastante pela Fernão Dias e passo frequentemente pela sua única praça de pedágio, em Mairiporã. É verdade, o Sem Parar me pouparia tempo, eu não precisaria frear, contar moedas, abrir o vidro do carro e todas essas atividades que exigem energia e disposição. Mas eu perderia uma coisa que eu adora fazer. Tão simples e tão estranha, mas tão interessante. Um dos pontos altos da viagem, perdendo por pouco para quando os caminhões se arremessam na minha frente, é olhar as pessoas que trabalham nas cabines e pensar sobre a vida delas.
Do lado da janela fica uma placa com o nome do atendente, o que já é uma dica. Já sabemos quem é o protagonista, meio caminho andado! Aí começa o exercício. Será que aquele ser está estudando, usando o salário para pagar a faculdade ou será que se conformou em fazer pilhas de sessenta centavos para o troco? Será que tem filhos, esposa ou será que cria 47 gatos dentro de uma casa hermeticamente fechada?
Com o passar dos quilômetros, os detalhes vão surgindo. Pessoas que podem mudar o destino da humanidade podem estar justamente ali, me entregando o recibo. Talvez um deles tenha sido mordido por um bugio, tem muitos na região, e seja a primeira pessoa a contrair a doença que dizimará a população global. Eu bem ali, de frente para o paciente zero! Ou talvez, nos intervalos entre um "boa noite" e outro, a inocente mocinha esteja coordenando uma quadrilha internacional, onde as maletas de dinheiro e armas letais são entregues no local mais insuspeito que existe.
No meu pedágio, tudo é possível. Gênios da ciência fazem o turno da manhã e profetas da religião do futuro meditam na calada da noite. São de alguns metros a diferença entre ser atendido por uma matadora serial que se alimenta do cérebro de suas vítimas e um protótipo de androide com fins militares.
Todos eles se camuflam ali, no meu caminho, para que eu possa um dia dizer que cruzei com as pessoas que alteraram o curso da História. Basta sentar em uma cadeira de pedágio para adquirir a capacidade de transmutar a verdade ordinária na fantasia cativante. As tramas da realidade se desdobram e se refazem com a mesma simplicidade que a cancela levanta, com o toque de um botão. E pensar que eu quase perdi a chance de encontrar o futuro Saladino ou Joana d'Arc só porque me ofereceram o Sem Parar...
Essa é em homenagem ao Bandeijão da vovó, no campus de Pirassununga, a terra prometida. Lá podíamos repetir quantas vezes quiséssemos e de vez em quando tinha sorvete de sobremesa! O salão era gigante e compartilhado por todos, professores, alunos e funcionários. Parecia uma versão interiorana do Valhalla, onde todos que morreram em combate com nelores furiosos banqueteavam até o Ragnarok, quando expulsariam o prefeito do campus e suas legiões da fazenda.
"Quando eu era criança, era comum, mas hoje em dia é raro". É isso que você irá ouvir 90% das vezes que interrogar um não-criança sobre a aparição desse curiosos animais, segundo a lenda o único crustáceo terrestre. Realmente, eu fico intervalos imensos sem os ver hoje em dia, enquanto me lembro de encontra-los quase diariamente enquanto infante...
Mas talvez o que tenha mudado não seja a presença real destes seres, mas a nossa capacidade de encontra-los. Teríamos que recorrer aos maiores especialistas nos assunto para identificar se houve verdadeiramente uma queda no número destes animais, a saber, as crianças. Talvez elas continuem encontrando estes seres tão bem protegidos dos perigos do mundo, não por sua carapaça frágil, mas pelo encanto que causa nos pequenos que decidem, por isso, poupa-los.
Uma possível explicação é que os jovens possuem os olhos e as mentes mais próximas do pó de onde viemos. Eles costumam revirar as pedras e plantas em busca de tesouros enterrados e fósseis ancestrais escondidos - porque não? - em um quintal. Adultos que vasculhem o terreno desta forma tendem a não ser muito bem vistos pela sociedade, sabe como é, pega mal... Desta forma, é somente uma questão de probabilidade que a idade seja inversamente proporcional a quantidade de tatuzinhos encontrados.
Mas é claro que a verdade não seria tão simplória e desprovida de mágica assim. Essas explicações servem somente para matar a busca pelo místico que existe dentro de cada guri. Assim como o ser em questão demonstra uma capacidade volvacional física, também apresenta esta qualidade do ponto de vista psicológico. Ele é capaz de nos fazer voltar ao nosso estado mental infantil quando aparece. Desperta em todos nós uma doce nostalgia, do tempo em que éramos piratas em busta de rum sabor groselha ou que eramos cientístas prestes a descobrir qualquer coisa de incrível ao queimar formigas com lupas. Talvez os pequenos bichos-de-conta sejam enviados do mundo de faz-de-conta, trazendo uma mensagem urgente do passado para nós, que só o nosso subconsciente que desperta é capaz de desvendar.
Ou talvez eles sejam a própria materialização desta nostalgia, quando elas atingem níveis críticos. A supersaturação da criatividade e da inocência da primeira idade se precipitariam na forma de uma pequena criatura, trazida ao plano material para nos lembrar de pensar que o mundo pode sim ser um local fantástico e encandador.
A unificação do povo mongol por Genghis Khan, no início do século XIII, pode ser considerado um marco na história da humanidade. A partir daquele momento, muitos e muitos povos pela Ásia e depois pela Europa não souberam o que era paz, pelo menos até que o Império entresse em colapso, esmagado pelo próprio peso.
A capacidade deste terrível exército foi lendária, a ponto de seus inimigos realmente acreditarem que eram invencíveis. Com extrema disciplina, organização e crueldade, faziam cidades inteiras tremerem somente pela suposição de que eles estavam a caminho. Samarkand, na Pérsia, uma poderosa e influente cidade, foi devastada em poucos dias. Nem sequer os animais eram poupados da barbaridade e frieza das estepes.
Não havia nada que pudesse para-los. Não havia nada que impedisse-os de destruir o que bem dessejassem seus generais. Mas havia uma falha no exército. Não uma falha que os pudesse levar a derrota, é claro. Mas uma que poderia, pelo menos, rebaixar sua grandeza. Algo para que suas vítimas pudessem rir enquanto eram perfuradas por chuvas de flechas, disparadas pelos letais arcos curvos dos mangudais...
Os mongóis devastavam todo aquela parte do planeta montados em pôneis! Seus lendários arqueiros montados não tinham os grandes e imponentes cavalos de guerra que se faz imaginar, mas pequenos e meigos pôneis das estepes. Vigorosos e rápidos, é verdade, resistentes ao mais rigoroso inverno e ao mais escaldante deserto. Mas ainda assim pôneis. Qualquer um que ameaçasse rir desta característica era imediatamente amarrado a alguns destes animais e esquartejado pelo movimento centrífugo deles, mas eles eram tão fofinhos!
Enfim, se não era possível enfrentá-los, pelo menos era possível se encantar com suas montarias. Ainda hoje na Mongólia esse animais continuam a resistir às mais terríveis imposições da natureza e a servir os humanos em seus desígnios, sejam estes tão sanguinários como devastar nações ou tão nobres como alegrar crianças.