Outro dia, em uma conversa genérica, o assunto caiu o Sem Parar, aquele aparato de pendurar na frente do caro que faz com que não seja necessário parar nas cancelas de pedágios e estacionamentos. Um pessoal fica nos pedágios em momento de trânsito perguntando se os motoristas desejam instalar as geringonças. Geralmente a distração é tanta que não percebemos que as filas se formaram porque mais da metade das cabines estão fechadas. Se o pessoal que vende o Sem Parar estivesse na cabine, todos passariam muito mais rápido, mas vai entender.
Recentemente, eu tenho andado bastante pela Fernão Dias e passo frequentemente pela sua única praça de pedágio, em Mairiporã. É verdade, o Sem Parar me pouparia tempo, eu não precisaria frear, contar moedas, abrir o vidro do carro e todas essas atividades que exigem energia e disposição. Mas eu perderia uma coisa que eu adora fazer. Tão simples e tão estranha, mas tão interessante. Um dos pontos altos da viagem, perdendo por pouco para quando os caminhões se arremessam na minha frente, é olhar as pessoas que trabalham nas cabines e pensar sobre a vida delas.
Do lado da janela fica uma placa com o nome do atendente, o que já é uma dica. Já sabemos quem é o protagonista, meio caminho andado! Aí começa o exercício. Será que aquele ser está estudando, usando o salário para pagar a faculdade ou será que se conformou em fazer pilhas de sessenta centavos para o troco? Será que tem filhos, esposa ou será que cria 47 gatos dentro de uma casa hermeticamente fechada?
Com o passar dos quilômetros, os detalhes vão surgindo. Pessoas que podem mudar o destino da humanidade podem estar justamente ali, me entregando o recibo. Talvez um deles tenha sido mordido por um bugio, tem muitos na região, e seja a primeira pessoa a contrair a doença que dizimará a população global. Eu bem ali, de frente para o paciente zero! Ou talvez, nos intervalos entre um "boa noite" e outro, a inocente mocinha esteja coordenando uma quadrilha internacional, onde as maletas de dinheiro e armas letais são entregues no local mais insuspeito que existe.
No meu pedágio, tudo é possível. Gênios da ciência fazem o turno da manhã e profetas da religião do futuro meditam na calada da noite. São de alguns metros a diferença entre ser atendido por uma matadora serial que se alimenta do cérebro de suas vítimas e um protótipo de androide com fins militares.
Todos eles se camuflam ali, no meu caminho, para que eu possa um dia dizer que cruzei com as pessoas que alteraram o curso da História. Basta sentar em uma cadeira de pedágio para adquirir a capacidade de transmutar a verdade ordinária na fantasia cativante. As tramas da realidade se desdobram e se refazem com a mesma simplicidade que a cancela levanta, com o toque de um botão. E pensar que eu quase perdi a chance de encontrar o futuro Saladino ou Joana d'Arc só porque me ofereceram o Sem Parar...
haeuhaeuhaeuaeh
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