quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Estação: Luz



Todo carioca que conheci até hoje foi muito simpático comigo. Não tenho do que reclamar, mesmo me esforçando, e olha que eu me esforço! Mas tem uma coisa mais forte do que eu, que é o inconsciente coletivo paulistano, que faz arrepiar os cabelos da nuca ao ouvir o roncar do erre da Cidade Maravilhosa.

. Essa maneira de pensar vem sendo construída desde 1554, quando poucos e vigorosos sacerdotes católicos portugueses venceram em pleno verão a implacável muralha verdejante que nos separa do oceano. Inaugurava-se ali a determinação inerente à cidade, a capacidade de superar obstáculos que se reflete na população do planalto como uma benção emanando do Pátio do Colégio.

A pobreza causada pelo afastamento do litoral intensificou ainda mais o sentimento. Privados das riquezas do comércio, os caboclos da vila se viram obrigados a explorar o território em busca de metais para explorar e índios para escravizar. Os primeiros nos trouxeram o reconhecimento pela descoberta das minas de ouro no hoje estado de Minas Gerais, propulsionando o crescimento econômico do país por um século. Os segundos nos trouxeram a mistura da cultura invasora com a local, com novos hábitos alimentares e nomes que nos acompanham até hoje, por exemplo.

Inclusive foram nossos habitantes aborígenes que nomearam o início do Brasil como um país, nada mais justo. Às margens do riacho de água barrenta, ou Ipiranga para os índios Guaianazes, se iniciou a nossa liberdade. Podíamos cometer nossos próprios erros a partir de então. Mais uma cortesia da vila interiorana. Apesar dos motivos pragmáticos para a independência, foi São Paulo que conseguiu declarar todo o país independente simultaneamente ao invés de deixá-lo fragmentar-se. Sem a firme orientação paulistana, estaria perdida a unidade nacional e, com ela, possivelmente os cinco títulos em Copas. Os portenhos poderiam fazer isso pela América Espanhola, caso houvesse uma serra após o Rio da Prata.

E então vieram os seguidores dos primeiros jesuítas, metaforicamente e literalmente. Imigrantes de todos os cantos inundaram a cidade, chegando à estação com um simbolismo mais sutil e profundo do que a própria Estátua da Liberdade, na grande maçã. A Luz se fazia para quem tinha São Paulo como destino.  Nomearam a segunda estrada que nos leva ao litoral, depois do jesuíta pioneiro. Nordestinos, italianos, judeus, japoneses, portugueses e muitos outros estabeleceram-se por aqui, vencendo obstáculos até mesmo antes de chegar, como guerras, miséria, perseguições. Deram volume e consistência à mistura, se afinaram por trazer a garra que vibra terra da garoa. Não aprovar a imigração é não aprovar São Paulo, essa massa vibrante de cores, religiões e línguas. Tomamos forma graças a todos que vieram buscar por aqui as oportunidades inexistentes em qualquer outro local. A raça paulista não existe, ou se existe é feita justamente da confusão de tipos que ecoam em todos os seus bairros. Todos que peregrinam em busca de um sonho, como o apóstolo que nos batiza, podem fazer um lar em São Paulo. Podem também, como o apóstolo, verem seus sonhos realizados se acreditarem.

Esta é minha maneira de homenagear a minha cidade. Ela é repleta de problemas; sofre com violência, congestionamentos, poluição excessiva, para citar alguns. Mas também é viva, ativa, esperançosa, inovadora. Não é conduzida, conduz, além de ser onde eu nasci e cresci, e onde quero morrer. Se os sertanejos podem dizer isso, eu também posso.

P.S. - Sejam muito bem vindos todos os bolivianos que agora contagiam a cidade com esforço e humildade.  Que possam fazer da cidade seus lares, como todos que vieram antes e que possam contribuir com sua riquíssima cultura para nossa história.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Caminho Fantástico

Outro dia, em uma conversa genérica, o assunto caiu o Sem Parar, aquele aparato de pendurar na frente do caro que faz com que não seja necessário parar nas cancelas de pedágios e estacionamentos. Um pessoal fica nos pedágios em momento de trânsito perguntando se os motoristas desejam instalar as geringonças. Geralmente a distração é tanta que não percebemos que as filas se formaram porque mais da metade das cabines estão fechadas. Se o pessoal que vende o Sem Parar estivesse na cabine, todos passariam muito mais rápido, mas vai entender. 

Recentemente, eu tenho andado bastante pela Fernão Dias e passo frequentemente pela sua única praça de pedágio, em Mairiporã. É verdade, o Sem Parar me pouparia tempo, eu não precisaria frear, contar moedas, abrir o vidro do carro e todas essas atividades que exigem energia e disposição. Mas eu perderia uma coisa que eu adora fazer. Tão simples e tão estranha, mas tão interessante. Um dos pontos altos da viagem, perdendo por pouco para quando os caminhões se arremessam na minha frente, é olhar as pessoas que trabalham nas cabines e pensar sobre a vida delas.

Do lado da janela fica uma placa com o nome do atendente, o que já é uma dica. Já sabemos quem é o protagonista, meio caminho andado! Aí começa o exercício. Será que aquele ser está estudando, usando o salário para pagar a faculdade ou será que se conformou em fazer pilhas de sessenta centavos para o troco? Será que tem filhos, esposa ou será que cria 47 gatos dentro de uma casa hermeticamente fechada?

Com o passar dos quilômetros, os detalhes vão surgindo. Pessoas que podem mudar o destino da humanidade podem estar justamente ali, me entregando o recibo. Talvez um deles tenha sido mordido por um bugio, tem muitos na região, e seja a primeira pessoa a contrair a doença que dizimará a população global. Eu bem ali, de frente para o paciente zero! Ou talvez, nos intervalos entre um "boa noite" e outro, a inocente mocinha esteja coordenando uma quadrilha internacional, onde as maletas de dinheiro e armas letais são entregues no local mais insuspeito que existe.

No meu pedágio, tudo é possível. Gênios da ciência fazem o turno da manhã e profetas da religião do futuro meditam na calada da noite. São de alguns metros a diferença entre ser atendido por uma matadora serial que se alimenta do cérebro de suas vítimas e um protótipo de androide com fins militares.

Todos eles se camuflam ali, no meu caminho, para que eu possa um dia dizer que cruzei com as pessoas que alteraram o curso da História. Basta sentar em uma cadeira de pedágio para adquirir a capacidade de transmutar a verdade ordinária na fantasia cativante. As tramas da realidade se desdobram e se refazem com a mesma simplicidade que a cancela levanta, com o toque de um botão. E pensar que eu quase perdi a chance de encontrar o futuro Saladino ou Joana d'Arc só porque me ofereceram o Sem Parar...



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Ticket Bandeijão


Essa é em homenagem ao Bandeijão da vovó, no campus de Pirassununga, a terra prometida. Lá podíamos repetir quantas vezes quiséssemos e de vez em quando tinha sorvete de sobremesa! O salão era gigante e compartilhado por todos, professores, alunos e funcionários. Parecia uma versão interiorana do Valhalla, onde todos que morreram em combate com nelores furiosos banqueteavam até o Ragnarok, quando expulsariam o prefeito do campus e suas legiões da fazenda.



Corram para as colinas!
Um nelore furioso!
------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Uma tradução livre:




Eu disse que tava com fome
Bora ir comer
Yeah!
A mina que eu convidei
quer emagrecer.


Ela tem um ticket bandeijão
Ela tem um ticket bandeijão-ão-ão
Ela tem um ticket bandeijãããão
Mas ela não liga!

Ela disse o regime dela
Estou destruindo
Yeah!
Ela se controlando e eu
pareço um suíno.

Ela tem um ticket bandeijão
Ela tem um ticket bandeijão-ão-ão
Ela tem um ticket bandeijãããão
Mas ela não liga!

Eu disse "se não quiser sobremesa
Pode pegar seu sorvete
pra mim!"

Acho que ela não gostou muito
Nunca vi um olhar com tanto ódio
Assim!
------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Agora eu sou a prova de que liberdade demais pode não ser uma coisa tão boa assim!