Todo carioca que conheci até hoje foi muito simpático comigo. Não tenho do que reclamar, mesmo me esforçando, e olha que eu me esforço! Mas tem uma coisa mais forte do que eu, que é o inconsciente coletivo paulistano, que faz arrepiar os cabelos da nuca ao ouvir o roncar do erre da Cidade Maravilhosa.
. Essa maneira de pensar vem sendo construída desde 1554, quando poucos e vigorosos sacerdotes católicos portugueses venceram em pleno verão a implacável muralha verdejante que nos separa do oceano. Inaugurava-se ali a determinação inerente à cidade, a capacidade de superar obstáculos que se reflete na população do planalto como uma benção emanando do Pátio do Colégio.
A pobreza causada pelo afastamento do litoral intensificou ainda mais o sentimento. Privados das riquezas do comércio, os caboclos da vila se viram obrigados a explorar o território em busca de metais para explorar e índios para escravizar. Os primeiros nos trouxeram o reconhecimento pela descoberta das minas de ouro no hoje estado de Minas Gerais, propulsionando o crescimento econômico do país por um século. Os segundos nos trouxeram a mistura da cultura invasora com a local, com novos hábitos alimentares e nomes que nos acompanham até hoje, por exemplo.
Inclusive foram nossos habitantes aborígenes que nomearam o início do Brasil como um país, nada mais justo. Às margens do riacho de água barrenta, ou Ipiranga para os índios Guaianazes, se iniciou a nossa liberdade. Podíamos cometer nossos próprios erros a partir de então. Mais uma cortesia da vila interiorana. Apesar dos motivos pragmáticos para a independência, foi São Paulo que conseguiu declarar todo o país independente simultaneamente ao invés de deixá-lo fragmentar-se. Sem a firme orientação paulistana, estaria perdida a unidade nacional e, com ela, possivelmente os cinco títulos em Copas. Os portenhos poderiam fazer isso pela América Espanhola, caso houvesse uma serra após o Rio da Prata.
E então vieram os seguidores dos primeiros jesuítas, metaforicamente e literalmente. Imigrantes de todos os cantos inundaram a cidade, chegando à estação com um simbolismo mais sutil e profundo do que a própria Estátua da Liberdade, na grande maçã. A Luz se fazia para quem tinha São Paulo como destino. Nomearam a segunda estrada que nos leva ao litoral, depois do jesuíta pioneiro. Nordestinos, italianos, judeus, japoneses, portugueses e muitos outros estabeleceram-se por aqui, vencendo obstáculos até mesmo antes de chegar, como guerras, miséria, perseguições. Deram volume e consistência à mistura, se afinaram por trazer a garra que vibra terra da garoa. Não aprovar a imigração é não aprovar São Paulo, essa massa vibrante de cores, religiões e línguas. Tomamos forma graças a todos que vieram buscar por aqui as oportunidades inexistentes em qualquer outro local. A raça paulista não existe, ou se existe é feita justamente da confusão de tipos que ecoam em todos os seus bairros. Todos que peregrinam em busca de um sonho, como o apóstolo que nos batiza, podem fazer um lar em São Paulo. Podem também, como o apóstolo, verem seus sonhos realizados se acreditarem.
Esta é minha maneira de homenagear a minha cidade. Ela é repleta de problemas; sofre com violência, congestionamentos, poluição excessiva, para citar alguns. Mas também é viva, ativa, esperançosa, inovadora. Não é conduzida, conduz, além de ser onde eu nasci e cresci, e onde quero morrer. Se os sertanejos podem dizer isso, eu também posso.
P.S. - Sejam muito bem vindos todos os bolivianos que agora contagiam a cidade com esforço e humildade. Que possam fazer da cidade seus lares, como todos que vieram antes e que possam contribuir com sua riquíssima cultura para nossa história.