quarta-feira, 29 de maio de 2013

Duplo Cego

O amor (Eros) é uma ciência.
É preciso testá-lo com metodologia.
Com a repetibilidade da experiência,
falseabilidade como prerrogativa.

Não se pode afirmar ser amor de verdade
antes que se chegue ao final da vida.
Até que a certeza com a morte se pague
todos são sujeitos a uma recaída.

Porque uma palavra assim, forte
caso seja usada sem precaução
poderá vir perder sua razão.

Que péssima escolha! Não que me importe
Se embrenhar pela maior dor
e arriscar a compreender a natureza do amor!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Busca


Talvez se eu pudesse
Ver além da minha espécie
que tudo enlouquece
Eu seria feliz?

Será que a alegria
Dissimulada magia
da realidade é varrida?
É só uma atriz?

Pois viva o instante
não seja pensante
do prazer vire amante
Quem é que me diz?

Há uma luz lá no fundo
Que ilumina meu mundo
Diz: pra ver mais profundo
Só falta um triz.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Wanstead Station



Wanstead Station
and then take the bus
without excitation
a place for us

Wanstead Station
a squirrel and a fox
we need conformation
our lifes in a box

Wanstead Station
the wood and the pond
there´s no confrontation
anywhere to be found

Wanstead Station
a place in the past
a great desolation
a beauty so vast

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Quando eu morei na Inglaterra, fiquei em um bairro afastado, com população majoritariamente inglesa. O local era muitíssimo pacato, no meio de dois grandes parques da periferia, onde havia muitos corvos, esquilos e raposas, sendo que estas vinham cochilar no quintal da casa que morei . Foi uma das cenas que mais me impressionou, a falta de medo que sentiam esses animais, criando um ambiente tão tranquilo próximo a um dos locais mais visitados do mundo. Morei com pessoas até então desconhecidas. Era uma ocasião toda nova, assustadora! Mas tão logo cheguei, no primeiro dia, e senti que poderia relaxar naquele ambiente. Fui muito bem recebido, tive ajuda para tudo que precisei e pude viver plenamente o que foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida!

Em homenagem a Chico Herck e Camilla Pissetti!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Éden em construção

Hoje eu acordei pensando no Jardim do Éden, não me perguntem por quê. A Gênese é uma história forte, que representa muito das situações onde a humanidade, como coletivo, se colocou. Respeito todos aqueles que consideram a história verídica, mas eu a tratarei, como sempre, como um mito de criação. Como qualquer mito de criação, ela representa para mim a maneira como aquele povo conseguiu aliviar a angústia de não ter noção precisa de sua origem, ao mesmo tempo em que trouxe vários questionamentos e reflexões sobre a nossa quase inexplicável existência à tona. Um conto bastante profundo e inspirado!

O objetivo aqui não é criar debate sobre qual interpretação está certa. Todos tem o direito de pesarem o que quiserem e o dever de tolerar a visão alheia. Quero me ater especificamente aos versículos 2-16 e 2-17, que dizem: "E deu-lhes (Deus) este preceito, dizendo: Come de todas as árvores do paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente."

Olha só, não foi descrita nenhuma maçã. O que nos foi proibido foi o fruto do conhecimento do bem e do mal, para não morrermos. Por que Deus não gostaria que soubéssemos diferenciar o bem e o mal? e por que a ameaça de morte? Mais a frente, a serpente avisa que o fruto não mataria, mas abriria os olhos ( 3-4 e 3-5). Realmente, é isso que acontece, pela descrição bíblica, ninguém morre depois de comer daquele fruto. Então nos sobram duas opções: Ou Deus é mentiroso, por maldade ou por não saber tudo; ou Deus usa uma linguagem figurada. Considerando a visão de Deus perfeito que havia, nos sobra a segunda. Efetivamente, ao comermos o tal fruto, morremos em nossa condição anterior, para iniciar uma nova existência, de olhos abertos. Uma existência permeada de moral, visto que agora podíamos distinguir o bem e o mal.

A primeira consequência foi percebermos que estávamos nus, ali, no meio da Jardim. Os animais andam nus e não sentem vergonha de suas vergonhas. O único animal que se cobre é o humano, por diferenciar os dois estados. A segunda consequência é que fomos expulsos do Jardim, e teríamos que trabalhar todos os dias da via pelo nosso sustento. Se não soubéssemos diferenciar as coisas, que mal faria ficar vivendo de maneira inconsequente por aí, como os animais mesmo fazem? O fato é que não éramos mais como animais, tínhamos agora responsabilidades, planos, escolhas....

E seguimos nós, humanidade, assim. Na mesma medida que a ignorância nos mantem confortáveis, por não ser necessário agir, nos tira também a capacidade de aprimorar-nos. Sempre que nos defrontamos com um obstáculo, seja ele um vazamento na casa ou a crise ecológica do planeta, temos a responsabilidade de corrigir, as custas do nosso cansaço e suor do rosto. Essa obrigação que antes não havia, na infância de cada um e na infância da espécie, é dura, penosa. Mas nos compele a sermos melhores e temos, pouco a pouco, criado o nosso Éden particular, no mesmo ritmo que aprendemos a escolher o bem que aprendemos sobre o mal de qual viemos.

PS: Usei a minha Bíblia para procurar os trechos em questão, que me foi dada pela minha avó Clotilde em junho de 86, eu então com 7 meses de idade, acho que ainda não sabia ler. Na ocasião eu estava bastante doente, foi o que me falaram. O presente em si não ajudou muito na ocasião, mas a intenção com certeza foi fundamental. Me serve hoje, porém, para apreciar esse Best-Seller e me lembrar da jornada dela, encerrada a alguns anos. Uma vida de trabalhos penosos, espinhos, suor no rosto e certamente muito aprendizado.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O desbravador

"O caminho traiçoeiro que cruza as montanhas ao norte leva o nome do explorador que o atravessou pela primeira vez, séculos atrás. Partia em busca de ouro e fama, em uma síntese do perigo que a ambição humana pode ignorar. Até hoje as densa
s brumas que a noite invoca e as curvas acentuadas junto aos precipícios fazem deste lugar o último lar para muitas das almas desatentas que ousam enfrentá-las. 
Não espere piedade daqueles que já desvendaram os segredos da passagem, deles só se pode receber brutalidade e desprezo.O desespero para chegar ao outro lado supera qualquer instinto de preservação ou responsabilidade moral frente ao próximo. Siga por sua própria conta e risco! Bem vindo à Fernão Dias."





Foto: "O caminho traiçoeiro que cruza as montanhas ao norte leva o nome do explorador que o atravessou pela primeira vez, séculos atrás. Partia em busca de ouro e fama, em uma síntese do perigo que a ambição humana pode ignorar. Até hoje as densas brumas que a noite invoca e as curvas acentuadas junto aos precipícios fazem deste lugar o último lar para muitas das almas desatentas que ousam enfrentá-las. Não espere piedade daqueles que já desvendaram os segredos da passagem, deles só se pode receber brutalidade e desprezo. O desespero para chegar ao outro lado supera qualquer instinto de preservação ou responsabilidade moral frente ao próximo. Siga por sua própria conta e risco! Bem vindo à Fernão Dias."

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Estação: Luz



Todo carioca que conheci até hoje foi muito simpático comigo. Não tenho do que reclamar, mesmo me esforçando, e olha que eu me esforço! Mas tem uma coisa mais forte do que eu, que é o inconsciente coletivo paulistano, que faz arrepiar os cabelos da nuca ao ouvir o roncar do erre da Cidade Maravilhosa.

. Essa maneira de pensar vem sendo construída desde 1554, quando poucos e vigorosos sacerdotes católicos portugueses venceram em pleno verão a implacável muralha verdejante que nos separa do oceano. Inaugurava-se ali a determinação inerente à cidade, a capacidade de superar obstáculos que se reflete na população do planalto como uma benção emanando do Pátio do Colégio.

A pobreza causada pelo afastamento do litoral intensificou ainda mais o sentimento. Privados das riquezas do comércio, os caboclos da vila se viram obrigados a explorar o território em busca de metais para explorar e índios para escravizar. Os primeiros nos trouxeram o reconhecimento pela descoberta das minas de ouro no hoje estado de Minas Gerais, propulsionando o crescimento econômico do país por um século. Os segundos nos trouxeram a mistura da cultura invasora com a local, com novos hábitos alimentares e nomes que nos acompanham até hoje, por exemplo.

Inclusive foram nossos habitantes aborígenes que nomearam o início do Brasil como um país, nada mais justo. Às margens do riacho de água barrenta, ou Ipiranga para os índios Guaianazes, se iniciou a nossa liberdade. Podíamos cometer nossos próprios erros a partir de então. Mais uma cortesia da vila interiorana. Apesar dos motivos pragmáticos para a independência, foi São Paulo que conseguiu declarar todo o país independente simultaneamente ao invés de deixá-lo fragmentar-se. Sem a firme orientação paulistana, estaria perdida a unidade nacional e, com ela, possivelmente os cinco títulos em Copas. Os portenhos poderiam fazer isso pela América Espanhola, caso houvesse uma serra após o Rio da Prata.

E então vieram os seguidores dos primeiros jesuítas, metaforicamente e literalmente. Imigrantes de todos os cantos inundaram a cidade, chegando à estação com um simbolismo mais sutil e profundo do que a própria Estátua da Liberdade, na grande maçã. A Luz se fazia para quem tinha São Paulo como destino.  Nomearam a segunda estrada que nos leva ao litoral, depois do jesuíta pioneiro. Nordestinos, italianos, judeus, japoneses, portugueses e muitos outros estabeleceram-se por aqui, vencendo obstáculos até mesmo antes de chegar, como guerras, miséria, perseguições. Deram volume e consistência à mistura, se afinaram por trazer a garra que vibra terra da garoa. Não aprovar a imigração é não aprovar São Paulo, essa massa vibrante de cores, religiões e línguas. Tomamos forma graças a todos que vieram buscar por aqui as oportunidades inexistentes em qualquer outro local. A raça paulista não existe, ou se existe é feita justamente da confusão de tipos que ecoam em todos os seus bairros. Todos que peregrinam em busca de um sonho, como o apóstolo que nos batiza, podem fazer um lar em São Paulo. Podem também, como o apóstolo, verem seus sonhos realizados se acreditarem.

Esta é minha maneira de homenagear a minha cidade. Ela é repleta de problemas; sofre com violência, congestionamentos, poluição excessiva, para citar alguns. Mas também é viva, ativa, esperançosa, inovadora. Não é conduzida, conduz, além de ser onde eu nasci e cresci, e onde quero morrer. Se os sertanejos podem dizer isso, eu também posso.

P.S. - Sejam muito bem vindos todos os bolivianos que agora contagiam a cidade com esforço e humildade.  Que possam fazer da cidade seus lares, como todos que vieram antes e que possam contribuir com sua riquíssima cultura para nossa história.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Caminho Fantástico

Outro dia, em uma conversa genérica, o assunto caiu o Sem Parar, aquele aparato de pendurar na frente do caro que faz com que não seja necessário parar nas cancelas de pedágios e estacionamentos. Um pessoal fica nos pedágios em momento de trânsito perguntando se os motoristas desejam instalar as geringonças. Geralmente a distração é tanta que não percebemos que as filas se formaram porque mais da metade das cabines estão fechadas. Se o pessoal que vende o Sem Parar estivesse na cabine, todos passariam muito mais rápido, mas vai entender. 

Recentemente, eu tenho andado bastante pela Fernão Dias e passo frequentemente pela sua única praça de pedágio, em Mairiporã. É verdade, o Sem Parar me pouparia tempo, eu não precisaria frear, contar moedas, abrir o vidro do carro e todas essas atividades que exigem energia e disposição. Mas eu perderia uma coisa que eu adora fazer. Tão simples e tão estranha, mas tão interessante. Um dos pontos altos da viagem, perdendo por pouco para quando os caminhões se arremessam na minha frente, é olhar as pessoas que trabalham nas cabines e pensar sobre a vida delas.

Do lado da janela fica uma placa com o nome do atendente, o que já é uma dica. Já sabemos quem é o protagonista, meio caminho andado! Aí começa o exercício. Será que aquele ser está estudando, usando o salário para pagar a faculdade ou será que se conformou em fazer pilhas de sessenta centavos para o troco? Será que tem filhos, esposa ou será que cria 47 gatos dentro de uma casa hermeticamente fechada?

Com o passar dos quilômetros, os detalhes vão surgindo. Pessoas que podem mudar o destino da humanidade podem estar justamente ali, me entregando o recibo. Talvez um deles tenha sido mordido por um bugio, tem muitos na região, e seja a primeira pessoa a contrair a doença que dizimará a população global. Eu bem ali, de frente para o paciente zero! Ou talvez, nos intervalos entre um "boa noite" e outro, a inocente mocinha esteja coordenando uma quadrilha internacional, onde as maletas de dinheiro e armas letais são entregues no local mais insuspeito que existe.

No meu pedágio, tudo é possível. Gênios da ciência fazem o turno da manhã e profetas da religião do futuro meditam na calada da noite. São de alguns metros a diferença entre ser atendido por uma matadora serial que se alimenta do cérebro de suas vítimas e um protótipo de androide com fins militares.

Todos eles se camuflam ali, no meu caminho, para que eu possa um dia dizer que cruzei com as pessoas que alteraram o curso da História. Basta sentar em uma cadeira de pedágio para adquirir a capacidade de transmutar a verdade ordinária na fantasia cativante. As tramas da realidade se desdobram e se refazem com a mesma simplicidade que a cancela levanta, com o toque de um botão. E pensar que eu quase perdi a chance de encontrar o futuro Saladino ou Joana d'Arc só porque me ofereceram o Sem Parar...