terça-feira, 13 de maio de 2014

13/05 - dia 15, Berlim

Berlim é uma cidade bem contraditória. É linda e ao mesmo tempo um soco no estômago.

A memória da Segunda Guerra e do domínio soviético é muito forte por aqui, ainda. Há um sentimento geral de vergonha com relação a tudo isso. Bem no centro da cidade há um memorial para os ciganos, um museu dos judeus e um memorial que os russos construíram no meio da cidade, todos majestosamente preservados. Os restos do muro de Berlim podem ser facilmente encontrados, sendo um trecho deles construído em cima de um cemitério de vitimas de bombardeios dos aliados.

Isso invoca nas pessoas por aqui uma regressão acentuada da xenofobia que pode ser encontrada em diversos pontos da Europa e mesmo da Alemanha. Claro, ainda tem alguns, mas em geral Berlim parece ser uma cidade muito aberta socialmente, quando comparada à outras. Claro, nenhum cidadão de hoje tem culpa por nada, visto que pouquíssimos eram nascidos no período da guerra. Mas todas essas histórias espalhadas criam uma consciência tal.

Acho interessante. Claro que foi uma propaganda massiva contra o nazismo, e isso não está errado, mas que deixou de lado outras situações, como o massacre indígena nos EUA (pra não falar dos espanhóis e ficar no mais recente) ou a questão da palestina. Muitos outros lugares deveriam "cultuar" seus erros, mas esse é o primeiro que eu vejo efetivamente fazendo isso.

Também a relação com o comunismo é de amor e ódio. Se por um lado Marx é um dos pensadores mais influentes da Alemanha, por outro o regime soviético deixou marcas profundas no país. Também tem o fato de que a derrota na guerra veio por mão dos comunistas, mas evitou o aumento da vergonha deixado pelo nazismo. Não conversei com ninguém aqui sobre o assunto, mas deve ser interessante provar a visão deles sobre o tema...

Tudo isso faz Berlim uma cidade um tanto depressiva, se você parar pra ler a placas...

Mas também é uma cidade muito bem construída, com imigrantes de todos os lugares (se bem que mais turcos), parques surpreendentemente grandes bem no centro, praças e museus em abundância e uma grande quantidade de bicicletas, até facilmente alugadas, pra minha alegria! O rio não é tão integrado à cidade como em Munique, por exemplo, mas ainda é bem fácil de caminhar perto dele, o que é sempre muito agradável, em se tratando de rios limpos. E um falafel com uma cerveja (que eu pedi por engano achando que fosse suco...) sai por 4,10 euros, no kebab aqui perto!

No final, uma excelente cidade, não fosse esse maldito idioma!

O memorial dos russos

Muro de Berlim

O Senhor do Apfel - As Duas Torres
O símbolo de Berlim



quarta-feira, 7 de maio de 2014

07/05 - dia 9, Florença

Hoje é o último dia na Itália, estamos saindo de Toscana. Qualquer impressão negativa deixada por Roma e (principalmente) Nápoles podem ser deixadas de lado por essa região. Eles estão acostumados a receber turistas e tem estrutura pra isso, tanto histórica/cultural quanto relativas à preservação e transporte.

Fizemos as cidades de Pisa, Lucca, San Gimignano e Siena. As muralhas preservadas isolando o centro histórico dessas cidades mantém um ar medieval (apesar de terem sido construídas na idade moderna, mas vá lá...). Apesar disso, o cheiro de esgoto da época foi eliminado, fazendo a experiência muito mais animadora!

O ambiente natural também é encantador. São colinas cobertas de bosques e vinhedos, todos bem preservados. San Gimignano, especificamente, que fica no topo de uma colina, mostra bem essa mistura do ambiente urbano antigo com a natureza em torno.

Florença em si também não fica atrás. O rio bem preservado cortando a cidade faz com que se tenha um local muito agradável para se caminhar, e alguns parques amplos e bem cuidados cercam a cidade, além dos prédios antigos, todos muito próximos entre si, que compõe o centro da cidade.

Enfim, um trecho certamente mais interessante do que a famosa Roma.
San Gimignano

Florença

Lucca

Pisa

Siena

domingo, 4 de maio de 2014

04/05 - dia 6 - Roma

Hoje estou saindo de Roma e indo pra Florença. Neste tempo visitei a cidade em si, o Vaticano e fui até Pompéia (passa-se por Nápoles para ir até lá). Sinceramente, Roma não foi uma cidade que empolgou. as ruas são sujas e bagunçadas, as pessoas fumam em quase qualquer lugar (incluindo dentro de estações!), muitos dos monumentos são mal conservados e a igreja toma conta do lugar, com muito pompa, enquanto pedintes se juntam ao redor das catedrais.

Bom, claro que não é de todo ruim. Os pontos positivos incluem sorvetes deliciosos, fontes numerosas e bem construídas e pessoas receptivas (quase sempre). De qualquer jeito, é bem melhor que ficar em SP!

Foi curioso também cruzar essas informações com a vez que estive em Milão, e poder observar essa diferença brusca entre norte e sul da Itália. A cidade mais ao sul que conheci, Nápoles, é uma zona tão grande e tão feia que imediatamente lembrei das piadas sobre Carapicuíba...

Bom, espero melhorar minhas impressões em Florença!

Todo o charme do Paulão

Um dos corpos de Pompéia. Assombroso ver a expressão e crânio expostos juntos.
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

29/04 - dia 1

Primeiras impressões:

1-Nunca mais terei passaporte brasileiro. Descobri q não preciso dele se tiver o português ao sair do Brasil, onde a fila pra estrangeiros são muito mais curtas no controle da PF. Mas ao chegar à Europa, a fila dos europeus que é mais curta, como devia ser, facilitando a vida dos moradores locais. Nossa fronteira precisa aprender a valorizar o próprio povo, imagino...

2-Do avião, tirei 2 fotos que ficaram muito ruins, mas foram bacanas de se ver do alto. 1 da Cordilheira Atlas, no Marrocos, e outra de Gibraltar, onde Africa e Europa quase se tocam. Coisa mais linda!

3- Fico 1 dia num hotel próximo do aeroporto, em Madrid. É um bairro chamado Capricho, o que faz muito sentido. Aqui é extremamente limpo, organizado, arborizado. Tem um parque maravilhoso e um projeto urbanístico estabelecido. Não lembro de locais em SP tão agradáveis de se andar pela rua como aqui, e olha que eu já andei quase a cidade toda. Aí temos as pessoas passando o final de tarde andando de bicicleta, passeando com os cães e fazendo exercícios com muito mais frequência.

Extra: Fiz o favor de desmaiar no avião, possivelmente por conta de um chá que não me caiu muito bem e me deixou profundamente nauseado, somado às febres que eu tenho tido nos últimos dias.Por sorte eu estava procurando um banheiro e apaguei na frente das comissárias de bordo e longe dos passageiros. Foi o momento mais legal da viagem, acordar deitado confortavelmente dentro do avião, o que nunca é possível na classe econômica!
Ao fundo, os Atlas. O titã estava de folga.


Eu vejo a velha Europa, eu vejo a mãe África.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A 4° Pessoa

A língua portuguesa, como exemplo de forma de comunicação dinâmica e criativa, já está em necessidade de atualização. A mais urgente certamente é criar a 4° pessoa e formalizar os pronomes já aceitos pela população.
A quarta pessoa do singular seria o sujeito condicional "Se". Uso corriqueiro: "Se viu o jogo?" Notem que esse sujeito não necessariamente está lá, vai depender. Inclusive pode ter ido embora ou ter se defenestrado, caso tenha algum apego à linguagem antiga. Se não houver esse apego, certamente não haverá defenestramento, por falta de compreensão do termo... De qualquer maneira, é possível que o interlocutor esteja falando sozinho...
Já a quarta pessoa do plural terá o sujeito secreto "Agente". Usado, por exemplo, em "Agente vai pro bar". Ele é mais que oculto, pode estar em qualquer lugar, pode trabalhar no governo, ou até para os comunistas. É plural porque tem olhos em todos os locais, sabe de tudo. Certamente não é o tipo de pronome qual o qual podemos nos sentir confortável. Muito cuidado ao lidar com o sujeito de 4° pessoa "agente"!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Duplo Cego

O amor (Eros) é uma ciência.
É preciso testá-lo com metodologia.
Com a repetibilidade da experiência,
falseabilidade como prerrogativa.

Não se pode afirmar ser amor de verdade
antes que se chegue ao final da vida.
Até que a certeza com a morte se pague
todos são sujeitos a uma recaída.

Porque uma palavra assim, forte
caso seja usada sem precaução
poderá vir perder sua razão.

Que péssima escolha! Não que me importe
Se embrenhar pela maior dor
e arriscar a compreender a natureza do amor!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Busca


Talvez se eu pudesse
Ver além da minha espécie
que tudo enlouquece
Eu seria feliz?

Será que a alegria
Dissimulada magia
da realidade é varrida?
É só uma atriz?

Pois viva o instante
não seja pensante
do prazer vire amante
Quem é que me diz?

Há uma luz lá no fundo
Que ilumina meu mundo
Diz: pra ver mais profundo
Só falta um triz.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Wanstead Station



Wanstead Station
and then take the bus
without excitation
a place for us

Wanstead Station
a squirrel and a fox
we need conformation
our lifes in a box

Wanstead Station
the wood and the pond
there´s no confrontation
anywhere to be found

Wanstead Station
a place in the past
a great desolation
a beauty so vast

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Quando eu morei na Inglaterra, fiquei em um bairro afastado, com população majoritariamente inglesa. O local era muitíssimo pacato, no meio de dois grandes parques da periferia, onde havia muitos corvos, esquilos e raposas, sendo que estas vinham cochilar no quintal da casa que morei . Foi uma das cenas que mais me impressionou, a falta de medo que sentiam esses animais, criando um ambiente tão tranquilo próximo a um dos locais mais visitados do mundo. Morei com pessoas até então desconhecidas. Era uma ocasião toda nova, assustadora! Mas tão logo cheguei, no primeiro dia, e senti que poderia relaxar naquele ambiente. Fui muito bem recebido, tive ajuda para tudo que precisei e pude viver plenamente o que foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida!

Em homenagem a Chico Herck e Camilla Pissetti!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Éden em construção

Hoje eu acordei pensando no Jardim do Éden, não me perguntem por quê. A Gênese é uma história forte, que representa muito das situações onde a humanidade, como coletivo, se colocou. Respeito todos aqueles que consideram a história verídica, mas eu a tratarei, como sempre, como um mito de criação. Como qualquer mito de criação, ela representa para mim a maneira como aquele povo conseguiu aliviar a angústia de não ter noção precisa de sua origem, ao mesmo tempo em que trouxe vários questionamentos e reflexões sobre a nossa quase inexplicável existência à tona. Um conto bastante profundo e inspirado!

O objetivo aqui não é criar debate sobre qual interpretação está certa. Todos tem o direito de pesarem o que quiserem e o dever de tolerar a visão alheia. Quero me ater especificamente aos versículos 2-16 e 2-17, que dizem: "E deu-lhes (Deus) este preceito, dizendo: Come de todas as árvores do paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente."

Olha só, não foi descrita nenhuma maçã. O que nos foi proibido foi o fruto do conhecimento do bem e do mal, para não morrermos. Por que Deus não gostaria que soubéssemos diferenciar o bem e o mal? e por que a ameaça de morte? Mais a frente, a serpente avisa que o fruto não mataria, mas abriria os olhos ( 3-4 e 3-5). Realmente, é isso que acontece, pela descrição bíblica, ninguém morre depois de comer daquele fruto. Então nos sobram duas opções: Ou Deus é mentiroso, por maldade ou por não saber tudo; ou Deus usa uma linguagem figurada. Considerando a visão de Deus perfeito que havia, nos sobra a segunda. Efetivamente, ao comermos o tal fruto, morremos em nossa condição anterior, para iniciar uma nova existência, de olhos abertos. Uma existência permeada de moral, visto que agora podíamos distinguir o bem e o mal.

A primeira consequência foi percebermos que estávamos nus, ali, no meio da Jardim. Os animais andam nus e não sentem vergonha de suas vergonhas. O único animal que se cobre é o humano, por diferenciar os dois estados. A segunda consequência é que fomos expulsos do Jardim, e teríamos que trabalhar todos os dias da via pelo nosso sustento. Se não soubéssemos diferenciar as coisas, que mal faria ficar vivendo de maneira inconsequente por aí, como os animais mesmo fazem? O fato é que não éramos mais como animais, tínhamos agora responsabilidades, planos, escolhas....

E seguimos nós, humanidade, assim. Na mesma medida que a ignorância nos mantem confortáveis, por não ser necessário agir, nos tira também a capacidade de aprimorar-nos. Sempre que nos defrontamos com um obstáculo, seja ele um vazamento na casa ou a crise ecológica do planeta, temos a responsabilidade de corrigir, as custas do nosso cansaço e suor do rosto. Essa obrigação que antes não havia, na infância de cada um e na infância da espécie, é dura, penosa. Mas nos compele a sermos melhores e temos, pouco a pouco, criado o nosso Éden particular, no mesmo ritmo que aprendemos a escolher o bem que aprendemos sobre o mal de qual viemos.

PS: Usei a minha Bíblia para procurar os trechos em questão, que me foi dada pela minha avó Clotilde em junho de 86, eu então com 7 meses de idade, acho que ainda não sabia ler. Na ocasião eu estava bastante doente, foi o que me falaram. O presente em si não ajudou muito na ocasião, mas a intenção com certeza foi fundamental. Me serve hoje, porém, para apreciar esse Best-Seller e me lembrar da jornada dela, encerrada a alguns anos. Uma vida de trabalhos penosos, espinhos, suor no rosto e certamente muito aprendizado.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O desbravador

"O caminho traiçoeiro que cruza as montanhas ao norte leva o nome do explorador que o atravessou pela primeira vez, séculos atrás. Partia em busca de ouro e fama, em uma síntese do perigo que a ambição humana pode ignorar. Até hoje as densa
s brumas que a noite invoca e as curvas acentuadas junto aos precipícios fazem deste lugar o último lar para muitas das almas desatentas que ousam enfrentá-las. 
Não espere piedade daqueles que já desvendaram os segredos da passagem, deles só se pode receber brutalidade e desprezo.O desespero para chegar ao outro lado supera qualquer instinto de preservação ou responsabilidade moral frente ao próximo. Siga por sua própria conta e risco! Bem vindo à Fernão Dias."





Foto: "O caminho traiçoeiro que cruza as montanhas ao norte leva o nome do explorador que o atravessou pela primeira vez, séculos atrás. Partia em busca de ouro e fama, em uma síntese do perigo que a ambição humana pode ignorar. Até hoje as densas brumas que a noite invoca e as curvas acentuadas junto aos precipícios fazem deste lugar o último lar para muitas das almas desatentas que ousam enfrentá-las. Não espere piedade daqueles que já desvendaram os segredos da passagem, deles só se pode receber brutalidade e desprezo. O desespero para chegar ao outro lado supera qualquer instinto de preservação ou responsabilidade moral frente ao próximo. Siga por sua própria conta e risco! Bem vindo à Fernão Dias."

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Estação: Luz



Todo carioca que conheci até hoje foi muito simpático comigo. Não tenho do que reclamar, mesmo me esforçando, e olha que eu me esforço! Mas tem uma coisa mais forte do que eu, que é o inconsciente coletivo paulistano, que faz arrepiar os cabelos da nuca ao ouvir o roncar do erre da Cidade Maravilhosa.

. Essa maneira de pensar vem sendo construída desde 1554, quando poucos e vigorosos sacerdotes católicos portugueses venceram em pleno verão a implacável muralha verdejante que nos separa do oceano. Inaugurava-se ali a determinação inerente à cidade, a capacidade de superar obstáculos que se reflete na população do planalto como uma benção emanando do Pátio do Colégio.

A pobreza causada pelo afastamento do litoral intensificou ainda mais o sentimento. Privados das riquezas do comércio, os caboclos da vila se viram obrigados a explorar o território em busca de metais para explorar e índios para escravizar. Os primeiros nos trouxeram o reconhecimento pela descoberta das minas de ouro no hoje estado de Minas Gerais, propulsionando o crescimento econômico do país por um século. Os segundos nos trouxeram a mistura da cultura invasora com a local, com novos hábitos alimentares e nomes que nos acompanham até hoje, por exemplo.

Inclusive foram nossos habitantes aborígenes que nomearam o início do Brasil como um país, nada mais justo. Às margens do riacho de água barrenta, ou Ipiranga para os índios Guaianazes, se iniciou a nossa liberdade. Podíamos cometer nossos próprios erros a partir de então. Mais uma cortesia da vila interiorana. Apesar dos motivos pragmáticos para a independência, foi São Paulo que conseguiu declarar todo o país independente simultaneamente ao invés de deixá-lo fragmentar-se. Sem a firme orientação paulistana, estaria perdida a unidade nacional e, com ela, possivelmente os cinco títulos em Copas. Os portenhos poderiam fazer isso pela América Espanhola, caso houvesse uma serra após o Rio da Prata.

E então vieram os seguidores dos primeiros jesuítas, metaforicamente e literalmente. Imigrantes de todos os cantos inundaram a cidade, chegando à estação com um simbolismo mais sutil e profundo do que a própria Estátua da Liberdade, na grande maçã. A Luz se fazia para quem tinha São Paulo como destino.  Nomearam a segunda estrada que nos leva ao litoral, depois do jesuíta pioneiro. Nordestinos, italianos, judeus, japoneses, portugueses e muitos outros estabeleceram-se por aqui, vencendo obstáculos até mesmo antes de chegar, como guerras, miséria, perseguições. Deram volume e consistência à mistura, se afinaram por trazer a garra que vibra terra da garoa. Não aprovar a imigração é não aprovar São Paulo, essa massa vibrante de cores, religiões e línguas. Tomamos forma graças a todos que vieram buscar por aqui as oportunidades inexistentes em qualquer outro local. A raça paulista não existe, ou se existe é feita justamente da confusão de tipos que ecoam em todos os seus bairros. Todos que peregrinam em busca de um sonho, como o apóstolo que nos batiza, podem fazer um lar em São Paulo. Podem também, como o apóstolo, verem seus sonhos realizados se acreditarem.

Esta é minha maneira de homenagear a minha cidade. Ela é repleta de problemas; sofre com violência, congestionamentos, poluição excessiva, para citar alguns. Mas também é viva, ativa, esperançosa, inovadora. Não é conduzida, conduz, além de ser onde eu nasci e cresci, e onde quero morrer. Se os sertanejos podem dizer isso, eu também posso.

P.S. - Sejam muito bem vindos todos os bolivianos que agora contagiam a cidade com esforço e humildade.  Que possam fazer da cidade seus lares, como todos que vieram antes e que possam contribuir com sua riquíssima cultura para nossa história.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O Caminho Fantástico

Outro dia, em uma conversa genérica, o assunto caiu o Sem Parar, aquele aparato de pendurar na frente do caro que faz com que não seja necessário parar nas cancelas de pedágios e estacionamentos. Um pessoal fica nos pedágios em momento de trânsito perguntando se os motoristas desejam instalar as geringonças. Geralmente a distração é tanta que não percebemos que as filas se formaram porque mais da metade das cabines estão fechadas. Se o pessoal que vende o Sem Parar estivesse na cabine, todos passariam muito mais rápido, mas vai entender. 

Recentemente, eu tenho andado bastante pela Fernão Dias e passo frequentemente pela sua única praça de pedágio, em Mairiporã. É verdade, o Sem Parar me pouparia tempo, eu não precisaria frear, contar moedas, abrir o vidro do carro e todas essas atividades que exigem energia e disposição. Mas eu perderia uma coisa que eu adora fazer. Tão simples e tão estranha, mas tão interessante. Um dos pontos altos da viagem, perdendo por pouco para quando os caminhões se arremessam na minha frente, é olhar as pessoas que trabalham nas cabines e pensar sobre a vida delas.

Do lado da janela fica uma placa com o nome do atendente, o que já é uma dica. Já sabemos quem é o protagonista, meio caminho andado! Aí começa o exercício. Será que aquele ser está estudando, usando o salário para pagar a faculdade ou será que se conformou em fazer pilhas de sessenta centavos para o troco? Será que tem filhos, esposa ou será que cria 47 gatos dentro de uma casa hermeticamente fechada?

Com o passar dos quilômetros, os detalhes vão surgindo. Pessoas que podem mudar o destino da humanidade podem estar justamente ali, me entregando o recibo. Talvez um deles tenha sido mordido por um bugio, tem muitos na região, e seja a primeira pessoa a contrair a doença que dizimará a população global. Eu bem ali, de frente para o paciente zero! Ou talvez, nos intervalos entre um "boa noite" e outro, a inocente mocinha esteja coordenando uma quadrilha internacional, onde as maletas de dinheiro e armas letais são entregues no local mais insuspeito que existe.

No meu pedágio, tudo é possível. Gênios da ciência fazem o turno da manhã e profetas da religião do futuro meditam na calada da noite. São de alguns metros a diferença entre ser atendido por uma matadora serial que se alimenta do cérebro de suas vítimas e um protótipo de androide com fins militares.

Todos eles se camuflam ali, no meu caminho, para que eu possa um dia dizer que cruzei com as pessoas que alteraram o curso da História. Basta sentar em uma cadeira de pedágio para adquirir a capacidade de transmutar a verdade ordinária na fantasia cativante. As tramas da realidade se desdobram e se refazem com a mesma simplicidade que a cancela levanta, com o toque de um botão. E pensar que eu quase perdi a chance de encontrar o futuro Saladino ou Joana d'Arc só porque me ofereceram o Sem Parar...



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Ticket Bandeijão


Essa é em homenagem ao Bandeijão da vovó, no campus de Pirassununga, a terra prometida. Lá podíamos repetir quantas vezes quiséssemos e de vez em quando tinha sorvete de sobremesa! O salão era gigante e compartilhado por todos, professores, alunos e funcionários. Parecia uma versão interiorana do Valhalla, onde todos que morreram em combate com nelores furiosos banqueteavam até o Ragnarok, quando expulsariam o prefeito do campus e suas legiões da fazenda.



Corram para as colinas!
Um nelore furioso!
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Uma tradução livre:




Eu disse que tava com fome
Bora ir comer
Yeah!
A mina que eu convidei
quer emagrecer.


Ela tem um ticket bandeijão
Ela tem um ticket bandeijão-ão-ão
Ela tem um ticket bandeijãããão
Mas ela não liga!

Ela disse o regime dela
Estou destruindo
Yeah!
Ela se controlando e eu
pareço um suíno.

Ela tem um ticket bandeijão
Ela tem um ticket bandeijão-ão-ão
Ela tem um ticket bandeijãããão
Mas ela não liga!

Eu disse "se não quiser sobremesa
Pode pegar seu sorvete
pra mim!"

Acho que ela não gostou muito
Nunca vi um olhar com tanto ódio
Assim!
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Agora eu sou a prova de que liberdade demais pode não ser uma coisa tão boa assim!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sobre Meninos e Tatu-Bolas

"Quando eu era criança, era comum, mas hoje em dia é raro". É isso que você irá ouvir 90% das vezes que interrogar um não-criança sobre a aparição desse curiosos animais, segundo a lenda o único crustáceo terrestre. Realmente, eu fico intervalos imensos sem os ver hoje em dia, enquanto me lembro de encontra-los quase diariamente enquanto infante...

Mas talvez o que tenha mudado não seja a presença real destes seres, mas a nossa capacidade de encontra-los. Teríamos que recorrer aos maiores especialistas nos assunto para identificar se houve verdadeiramente uma queda no número destes animais, a saber, as crianças. Talvez elas continuem encontrando estes seres tão bem protegidos dos perigos do mundo, não por sua carapaça frágil, mas pelo encanto que causa nos pequenos que decidem, por isso, poupa-los.

Uma possível explicação é que os jovens possuem os olhos e as mentes mais próximas do pó de onde viemos. Eles costumam revirar as pedras e plantas em busca de tesouros enterrados e fósseis ancestrais escondidos - porque não? - em um quintal. Adultos que vasculhem o terreno desta forma tendem a não ser muito bem vistos pela sociedade, sabe como é, pega mal... Desta forma, é somente uma questão de probabilidade que a idade seja inversamente proporcional a quantidade de tatuzinhos encontrados.

Mas é claro que a verdade não seria tão simplória e desprovida de mágica assim. Essas explicações servem somente para matar a busca pelo místico que existe dentro de cada guri. Assim como o ser em questão demonstra uma capacidade volvacional física, também apresenta esta qualidade do ponto de vista psicológico. Ele é capaz de nos fazer voltar ao nosso estado mental infantil quando aparece. Desperta em todos nós uma doce nostalgia, do tempo em que éramos piratas em busta de rum sabor groselha ou que eramos cientístas prestes a descobrir qualquer coisa de incrível ao queimar formigas com lupas. Talvez os pequenos bichos-de-conta sejam enviados do mundo de faz-de-conta, trazendo uma mensagem urgente do passado para nós, que só o nosso subconsciente que desperta é capaz de desvendar.

Ou talvez eles sejam a própria materialização desta nostalgia, quando elas atingem níveis críticos. A supersaturação da criatividade e da inocência da primeira idade se precipitariam na forma de uma pequena criatura, trazida ao plano material para nos lembrar de pensar que o mundo pode sim ser um local fantástico e encandador.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pôneis Malditos

A unificação do povo mongol por Genghis Khan, no início do século XIII, pode ser considerado um marco na história da humanidade. A partir daquele momento, muitos e muitos povos pela Ásia e depois pela Europa não souberam o que era paz, pelo menos até que o Império entresse em colapso, esmagado pelo próprio peso.

A capacidade deste terrível exército foi lendária, a ponto de seus inimigos realmente acreditarem que eram invencíveis. Com extrema disciplina, organização e crueldade, faziam cidades inteiras tremerem somente pela suposição de que eles estavam a caminho. Samarkand, na Pérsia, uma poderosa e influente cidade, foi devastada em poucos dias. Nem sequer os animais eram poupados da barbaridade e frieza das estepes.

Não havia nada que pudesse para-los. Não havia nada que impedisse-os de destruir o que bem dessejassem seus generais. Mas havia uma falha no exército. Não uma falha que os pudesse levar a derrota, é claro. Mas uma que poderia, pelo menos, rebaixar sua grandeza. Algo para que suas vítimas pudessem rir enquanto eram perfuradas por chuvas de flechas, disparadas pelos letais arcos curvos dos mangudais...

Os mongóis devastavam todo aquela parte do planeta montados em pôneis! Seus lendários arqueiros montados não tinham os grandes e imponentes cavalos de guerra que se faz imaginar, mas pequenos e meigos pôneis das estepes. Vigorosos e rápidos, é verdade, resistentes ao mais rigoroso inverno e ao mais escaldante deserto. Mas ainda assim pôneis. Qualquer um que ameaçasse rir desta característica era imediatamente amarrado a alguns destes animais e esquartejado pelo movimento centrífugo deles, mas eles eram tão fofinhos!

Enfim, se não era possível enfrentá-los, pelo menos era possível se encantar com suas montarias. Ainda hoje na Mongólia esse animais continuam a resistir às mais terríveis imposições da natureza e a servir os humanos em seus desígnios, sejam estes tão sanguinários como devastar nações ou tão nobres como alegrar crianças.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A Teoria do Encaixe

Hoje eu consegui enchar a minha barra de criatividade inútil e usá-la em um combo para criar uma nova teoria! Depois de uma meia lua para trás + soco forte filosófico me veio essa ideia: por quê os bebês brincam com aquelas peças de plástico onde eles precisam descobrir o que encaixa aonde e os adultos não fazem isso?

Claro, cuidemos para manter as proporções. Não é educativo tampouco divertido um adulto encaixando quadrados plásticos em buracos equivalentes, apesar de eu achar que alguns talvez teriam dificuldades. Os bebês fazem isso para desenvolver o senso lógico, visão espacial e talvez mais algumas coisas, mas isso pouco ajudaria depois de uma certa idade. Mas o que me pareceu falho foi que encerramos o treinamento por aí. Depois de algum tempo abandonamos a lógica e paramos de nos esforçar para encaixar os modelos em seus moldes.

Quer dizer, todos sabem que isso é enriquecedor para os pretendentes a adultos, ou é o que parece. Não tenho formação de pedagogo, mas nunca ouvi nenhum dizer o contrário. Acontece que isso também seria interessante depois, extrapolando as medidas. Precisamos aprender, como adultos, a encaixar cada coisa no seu lugar correto, e uma parte do caos que vivemos, enquanto humanidade, parece surgir da falta de bloquinhos metafóricos.

Raramente compreendemos perfis que se adequam a profissões, por exemplo. Não cuidamos para encaixar pessoas honestas nos cargos políticos, que de maneira velada são nossos funcionários mais importantes. Ajeitamos todos os jovens em um molde, o vestibular, para determinar o que eles serão na vida. Esquecemos que essa mesmo molde exige somente uma avalição simples e insatisfatória de cada candidato. Qualquer pessoa que transborde conhecimento pode ser um médico na nossa sociedade, exetuando situações particulares. Porém, não exigimos respeito pelo sofrimento destas pessoas, uma caracterísca fundamental para alguem que irá encarar esta condição diariamente.

Esquecemos de adequar os nossos desejos à nossa capacidade de consumo, o que é trágico. Queremos passar um grande círculo de bens em um pequeno triângulo bancário, e depois culpamos "os capitalistas" pela crise financeira. Também forçamos um grande ego através de uma estreita passagem para a boa convivência, e quando danificamos a estrutura social que compõe os instrumentos, nos recusamos a ver o que aconteceu de errado.

Assim como os bebês, várias vezes precisaremos de múltiplas tentativas para perceber o que encaixa aonde. Na mentalidade infantil, um losango pode se assemelhar muito a uma estrela. Mas é por tentativa e erro, associada à reflexão que todos nós um dia descobrimos como fazer as peças coloridas entrarem na grande caixa. Façamos novamente este exercício na vida adulta para descobrir que pessoas e que comportamentos se adequam a cada situação.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Caso Bielorussia

Todo o mundo sabe que os E.U.A. lutam pela liberdade, em todas as suas variantes. E azar de quem não sabe, apanha. O conceito de liberdade imposta deve ser uma coisa muito complexa, porque eu não consigo diferenciar de outras imposições que uma ditadura faz, exceto pelo fato de não ser tão comum impor liberdade. Ou talvez eu seja muito limitado, só isso.

Para manter uma aparência de amizade, que se reflete diretamente na economia, muitos países apoiam essa luta contra os tiranos, tiranizando os povos que, mesmo indiretamente, os permitem. Os inimigos da democracia e do bom convívio global sempre estão em algum lugar distante, senão geograficamente, pelo menos filosoficamente. Acreditam em uma religião maluca, tem nomes escritos com letrinhas engraçadas e, por vezes no passado distante, quase destruiram o que chamávamos de civilização. O fato de que esses bárbaros eram muito mais avançados em matemática, astronomia, tolerância religiosa et cetera não é discutido, diferente do que ocorre hoje, com a afirmação de que o que a "ocidentalidade" faz é para o bem daqueles que estão sendo bombardeados.

Mas o que acontece quando o monstro tirano está, literalmente e metaforicamente, do seu lado? Quando este compartilha princípios culturais tão antigos, fica delicado taxá-lo como malvado, pode pegar mal... Este é o caso da Bielorussia, o último resquício de ditadura na Europa, uma terra tão civilizada. Claro, foi comunista, e por isso vista como vilã por algum tempo. Mas isso já passou, foi só um delírio marxista da Russia que respingou nos vizinhos, e os inimigos de verdade sempre estiveram além dos mares, naqueles desertos de onde nada de bom pode vir, exceto petróleo.

A Bielorrusia tem o mesmo presidente desde 1994, Lukashenko, sendo que obteve sua independência da URSS em 1991. Em 2006, o canditado da oposição, Kazulin, foi detido e espancado pela polícia em um protesto. A própria Europa acusou as eleições do pais de serem fraudulentas, atrvés da OSCE, e a ex-secretária de estado dos E.U.A., Condoleezza Rice, classificou o país como uma das seis nações que funcionam como bastiões da tirania. Mas nenhuma atitude foi tomada com relação a isso, pelo menos nenhuma mais enfática.

Enquanto todos nós vimos e ouvimos horrores sobre o Afeganistão e Iraque, ninguem nem sequer sabe onde fica a Bielorussia. O regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad, no Irã, passa pelas mesmas acusações da Bielorussia, mas por isso correm o risco de serem destruídos, pois é melhor povo nenhum do que povo tiranizado quando se trata de mulçumanos com petróleo. Talvez ainda estamos tentando nos vingar de quando Roma, o primeiro dos Imperios ocidentais, foi humilhado pela Pérsia na batalha de Carrae, o primeiro dos adversários da Democracia grega e da vontade de conquistar para civilizar dos romanos.

E ficamos nesse impasse, como advertir um coleguinha do nosso grupinho que está fazendo algo que não é tão condenável assim, mas que se não fosse coleguinha, seria uma coisa demoníaca? Como assumir que mesmo na culta e elegante Europa, ainda exista repreensão do pensar, no agir? Talvez tenha se tomado a melhor atitude para se manter a classe, que é simplesmente não tocar no assunto...

sábado, 19 de novembro de 2011

Rebecca Black e a Filosofia

Na verdade, essa ideia me surgiu para fazer piada, mas ela realmente pode causar algum tipo de reflexão, então acho que vale a pena ser escrita. Ela envolve Rebecca Black, uma quase cantora adolescente dos E.U.A., que publicou um clip na internet. Eu colocaria o vídeo aqui, mas não tenho conhecimento suficiente para isso, então colocarei só a página onde se encontra. http://www.youtube.com/watch?v=ytZPMcI8f1A

Com excepcionais 15655 pessoas não gostando do vídeo no momento que esse texto foi escrito, só na versão legendada em português, o tema virou motivo de piada entre pessoas do mundo inteiro. Para ler o texto você já deveria ter visto o clipe, mas se está com preguiça, eu resumo. É uma menina que quer curtir a sexta feira e fica dançando em um carro dirigido por um rapaz que parece ter 14 anos, mas vai saber...

Eu, com minha incrível capacidade, senão um superpoder, de associar coisas que não tem nada a ver, inventei a estória de que na verdade Rebecca Black é uma estudante de filosofia fazendo uma imensa crítica social. Como pode jovens que tem uma certa dificuldade em contar os dias da semana ou escolher o lugar onde se sentarão(não vou explicar, veja o vídeo) querer sair sexta a noite para uma festa?

A completa falta de prioridades dessse jovens está causando um distúrbio da sociedade como nós a conhecemos, onde primeiro deveria vir as responsbilidades (estudar, por exemplo, se bem que acho que ninguém estuda a ordem dos dias da semana...) e depois a diversão. A gravidez na adolescência é um ótimo exemplo, quando jovens querem copular antes de aprenderem sobre métodos contraceptivos, e prejudicam assim a sua formação profissional e o futuro de seus filhos, que crescerão sem uma base sólida, a não ser que os pais desses jovens resolvam assumir a responsabilidade. No fundo talvez seja esse o problema, a garotada que nunca teve que suportar as consequências de seus atos.

Seria bacana se isso fosse verdade, se os jovens começassem a entender que o mundo não vai acabar amanhã (talvez em 2012) e que aprendessem a ter visão criticas antes de se embebedar e dirigir, que voltassem com a ideologia que havia entre essa classe algum tempo atrás, que fossem a mudança que gostariam de ver no mundo. Mas isso é uma outra discussão que pode levar séculos, e também não parece que vai acontecer tão cedo...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Trombos Humanos

Essa é uma reflexão antiga, do tempo da faculdade, baseada na observação dos corredores desta. Se baseia na analogia entre trombos vasculares e consequente obstrução causada por eles, na teoria médica aceita atualmente e o comportamento das pessoas que se encontram casualmente e param para conversar.

Quando se observa o padrão de distribuição das rodas de conversas em locais públicos, é possível verificar que eles se concentram nos pontos mais estreitos de passagem. Não basta apenas estarem alocados nos estreitos corredores ao invés de estarem no amplo salão logo ao lado. É quase que obrigatório que estejam dispostas próximas a um bebedouro, porta de banheiro, vasos de plantas tamanho gigante ou qualquer outra coisa que contribua na obstrução que causarão nos corredores.

Geralmente as pessoas conversarão tranquilamente nesta situação, sem se preocupar se massas de pessoas tentando atravessar a passagem, que agora mais parece a batalha das Termópilas, estão apressadas ou reclamando. O único que irá se preocupar é aquele que tem as costas voltadas para a multidão e está sendo sutilmente espancado por esta.

Muitas são as possíveis explicações para este fenômeno. A primeira e mais simplista é que são nestes pontos onde as pessoas mais se encontram e, não estando longe suficiente só para acenar e seguir seu caminho, são obrigadas a parar e conversar. Geralmente como todos os seres humanos, acabam não percebendo quando são incômodos para o ambiente em torno deles e não cogitam se retirar para um local mais adequado para encerrar o assunto.

A segunda e mais maldosa é semelhante a primeira, mas infere que o fato de estar incomodando os transeuntes acrescenta prazer à conversa.

A terceira e mais pseudointelectual é que as pessoas que permaneciam nos estreitamentos da passagem durante a evolução humana se beneficiavam disto de alguma maneira. Talvez cobrando pedágio e gerando uma estrutura melhor para seus descendentes, talvez tendo mais chance de encontrar parceiros sexuais disponíveis, sei lá.

De qualquer maneira, o resultado empírico não mente. As pessoas, ao coagularem umas com as outras, se depositam nos estreitamentos dos vasos sociais.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Pressão alta

Outro dia, andando por perto da faculdade, eu vi um posto de prevenção à pressão alta. Tinha um cartaz que dizia mais ou menos assim: "Pressão alta pode matar. Afeta uma grande parte da população. Você pode ter pressão alta! Faça aqui os exames e descubra."

Achei fantástico! Quer dizer, estou andando tranquilo, descubro que posso morrer a qualquer instante, minha pressão sobe. Então eu faço o teste, a pressão realmente está alta, me dizem "ainda bem que descobriu a tempo". Me trato o resto da vida, feliz por não morrer de pressão alta e morro de efeitos colaterais das drogas.

É claro, a campanha serve para reduzir o número de óbitos decorrentes deste mal que afeta a sociedade atual. Só foi possível graças a modernidade, que disponibilizou o diagnóstico fácil para todos e que gerou drogas boas o suficiente para um tratamento adequado, em quantidades massivas que precisam ser vendidas. Bom que a situação que causou o problema possa resolve-la com uma quantidade aceitável de efeitos colaterais e ainda sair como heroína!

Mas quando se reduz os óbitos decorrente da pressão alta, não se aumenta o de cancêr, ou de pneumonia, ou de qualquer outra coisa? Não se deveria fazer uma campanha pela melhor qualidade de vida, o que não só reduziria a pressão e aumentaria a expectativa de vida, como a tal campanha, mas também previniria outras doenças e geraria um bem estar para o público alvo, com a prática de exercícios, dieta saudável, tempo livre em quantidade e qualidade suficiente?

Falando sério, quem quer viver uma vida saudável, quando é mais fácil ingerir uns comprimidos? Comprimidos que foram comprados com o dinheiro do trabalho excessivo e horas de trânsito, que causaram o aumento de pressão. É mais fácil viver anestesiado mentalmente, sem pensar em qualquer coisa dessas e tomar logo o remédio que o médico mandou.